Vai lá pra quem ainda não leu:
Naquela casa nada estragava, quebrava ou apodrecia. Nada se consumia, todas as coisas estranhamente conservavam-se preservadas ao longo do tempo.
Na casa havia um cômodo onde a mãe do noivo prestava reforço escolar à crianças do bairro. Nele havia uma grande mesa e as crianças sentavam-se ao redor dela. No canto, encaixado num vão um grande armário azul claro patinado, chaveado e que não podia ser aberto. As paredes eram adornadas com desenhos feitos por elas.
Os pais do noivo eram conhecidos por sua rigidez e austeridade. Aconteceu que, aproximanda a data do casamento, mudaram-se da vila em que moravam no interior do Rio Grande do Sul para Porto Alegre, onde residiam os noivos.
Qual não foi o espanto deles ao visitar a nova casa dos sogros pela primeira vez: móveis, objetos, decoração… tudo era exatamente igual à casa da vila em que eles se conheceram 15 anos antes, na infância.
Depois daquele domingo o noivo ficou muito perturbado, andava retraído e perdia o ânimo. A noiva, preocupada, sondava qual seria o problema:
- É meu irmão Clarice, agora lembro. Ele era mais novo e brincávamos todos os dias. Eu me lembro do seu rosto, como era parecido comigo. Ele ficou doente e morreu subitamente antes de eu te conhecer. De um dia para o outro não havia mais nenhuma foto dele pela casa, e meus pais não mencionavam o seu nome, como se ele nunca houvesse existido. Por alguns anos eles tentaram convencer-me de que eu imaginei tudo e sempre fui filho único, proibíram que eu tocasse no assunto, mas agora sei que não é verdade, eu tive um irmão, eu o amava.
O noivo permaneceu triste nos dias seguintes. A noiva também perturbou-se, muitas memórias do passado vieram à tona: como conheceu o noivo, as lendas ouvidas na vizinhança, a preocupação de seus pais e dos amigos com o namoro, a mudança apressada para Porto Alegre, a tentativa de viver uma vida normal. Foi uma transição muito sofrida, e ela não abriria mão de seu sonho de concretizar sua relação.
A noiva percebeu que nada lhe restava senão acreditar em seu amado e enfrentar a situação por ele, para que os dois pudéssem seguir em frente. Lembrou-se que quando criança ouvia que atrás do armário azul havia outro armário igual. Pensava que se pudesse abri-los desbriria algo sobre o irmão do noivo.
Naquela mesma semana rondava a casa dos sogros. Olhou pela janela as crianças ao redor da mesa em mais uma aula. Não suportava ver aquela cena. Ela incentivava o noivo a ir com ela abrir o tal armário, mas ele, muito desanimado, não expressava interesse.
Decidiu fazer tudo sozinha: num final de tarde, foi visitar a sogra, que, receosa, abriu a porta. A senhora foi surpreendida com um pano branco embebido de sonífero pressionado contra a suas narinas. Em segundos estava inconsciente. Munida com um pé-de-cabra, a noiva foi até o cômodo e abriu o primeiro armário: nele haviam louças, panos, material escolar e outros objetos para a casa replicados em muita quantidade.
Impetuosamente derrubou o primero armário, e de fato encontrou um segundo. Quando abriu este viu ainda muitos objetos da casa, e um grande invólucro branco que abriu com cuidado: era um menino, mumificado.
Naquela casa nada estragava, quebrava ou apodrecia. Nada se consumia, todas as coisas estranhamente conservavam-se preservadas ao longo do tempo.